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A gente não está preocupado em não ser eleito, a gente está preocupado em não ser preso

cms-image-000000814Apenas nas três últimas semanas, a população viu incrédula o Congresso tentar dar uma anistia a políticos que receberam dinheiro ilegalmente, assistiu a uma crise governamental por uma negociação de interesses privados no coração do governo e, por fim, acordou ontem sabendo que a Câmara aprovou de madrugada uma medida para coagir a Justiça e o Ministério Público.

A classe política, liderada pelos parlamentares do Congresso Nacional e lastreada no Palácio do Planalto, parece não ter aprendido nada com a crise política que engolfa o país desde 2013. Após duas décadas de relativa serenidade, as redes sociais reconectaram a população com o espaço público e milhões foram às ruas para defender seus pontos de vista.

Em três anos, transformaram governantes populares em zumbis políticos, impuseram o debate público de medidas antes restritas aos gabinetes e, por fim, retiraram do poder uma presidente recém-eleita que jogou o país no abismo econômico e transformou as contas públicas em peça de ficção. Ainda assim, os atos das últimas semanas mostram que o fosso entre os tapetes do Congresso e o asfalto das ruas nunca foi tão grande. Um parlamentar de oposição descrevia ontem a sensação durante a votação da madrugada em Brasília:

— A impressão é que todos ficaram doidos. E quando eles discutiam a anistia, você perguntava se eles não temiam perder voto e eles rebatiam: ‘A gente não está preocupado em não ser eleito, a gente está preocupado em não ser preso’.

Ontem, líderes de três partidos no Senado — entre eles o PMDB do presidente Temer — ainda tentaram atropelar o processo legislativo e completar, em menos de 24 horas, a votação da Câmara contra o MP e a Justiça. Em 2013, numa análise econômica que se tornou notória, o ex-ministro Delfim Netto apontou a soma de riscos que poderiam levar a uma “tempestade perfeita” na economia brasileira.

Enquanto a oitava economia do mundo patina em seu sétimo trimestre de contração, o presidente permitiu que a cúpula de seu governo atendesse a um lobby privado, demorou a atacar a anistia ao caixa dois e, agora, tenta repetir o silêncio em relação ao projeto que ataca o MP e o Judiciário.

Nos 15 anos que antecederam sua ascensão à Presidência da República, Temer dividiu-se entre a figura do constitucionalista que ocupava postos-chave no Legislativo e no Executivo e a do presidente do partido-símbolo do fisiologismo da política nacional, o PMDB. As panelas que rugiram ontem sugerem que ele escolha um lado.

 Fonte:O Globo

por Paulo Celso Pereira

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